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Do Barro à Arte

NenéEm meados dos anos cinqüenta os tempos eram difíceis para o agricultor Apolônio Graciano da Silva e a dona-de-casa Josefa Cavalcanti da Silva. Eles não podiam comprar brinquedos para todos os seus quinze filhos. O jeito era utilizar a criatividade e a liberdade trazida pelo sítio Santo Antônio. Maria das Neves Cavalcanti Moreira, uma das dez filhas deste agricultor e desta dona-de-casa, mais conhecida entre todos por Nené, ainda quando criança procurava transformar o barro em panelas, gatos, cachorros, brinquedos estes que eram objetos de desejo de todas as crianças de seu tempo. Sempre ao lado de sua irmã Naná, buscava um tempinho depois de ajudar o pai na roça e a mãe nos “afazeres” de casa para brincar de ser criança.

O tempo foi se passando e aquela menina de Alagoa Nova, interior da Paraíba queria ser mais, queria estudar na capital, queria se formar. Mudou-se para João Pessoa com o intuito de terminar o segundo grau, atual ensino médio. Posteriormente, prestou vestibular para o Curso de Enfermagem e foi aprovada. Terminado o Curso, Nené foi trabalhar como enfermeira no Hospital Universitário da Universidade Federal da Paraíba. Acabou por não se identificar com tamanho sofrimento vivido pelos pacientes. Nené sofria junto com eles, na ânsia de querer ajudar os doentes percebia que em muitos casos, nada podia fazer. Resolveu então, fazer o Curso de Pedagogia da UFPB.

Após terminar o Curso de Pedagogia, e já como professora da Universidade Federal da Paraíba, Nené foi trabalhar com crianças excepcionais. Ao lado delas, Nené pôde desenvolver um trabalho de integração destas com seus pais e com a própria sociedade. Mas ela ainda queria mais.

Em meados dos anos 80, Nené resolveu fazer o seu terceiro e último Curso Acadêmico. Novamente na UFPB, ela entrou no Curso de Educação Artística. Este abriria não somente novos horizontes para o seu trabalho, mas também para sua vida.

No decorrer do Curso de Educação Artística, além de encontrar nas Artes Cênicas um maravilhoso instrumento para ser utlizado com as crianças portadoras de necessidades especiais, Nené retornou à sua infância quando voltou a “brincar” com o barro. Mas, desta vez, a brincadeira de criança se desenvolveu e virou arte.

Através do aprendizado vivenciado na universidade e de seu talento, Nené começou a criar com a ajuda do barro figuras femininas, anjos, corpos nus, gordas, peças abstratas e semi-abstratas e de repente, não parou mais. Com o passar dos anos sua técnica foi se aprimorando e o que era pra ser um “passatempo para alma” tornou-se uma nova profissão. Aquela mulher natural de Alagoa Nova tornara-se artista plástica.

Inicialmente a exposição dos trabalhos de Nené começou de forma muito tímida. Ela ainda recorda com muita alegria do primeiro convite para expor suas esculturas na Biblioteca Central da Universidade Federal da Paraíba. Ainda lembra também da emoção de suas primeiras peças vendidas. Pouco tempo depois, os convites se expandiram para Brasília, São Paulo, Minas Gerais, entre outros. E a divulgação de seu trabalho não ficou apenas espalhado por nosso país, ele encontrou também o reconhecimento de países como Portugal, Itália e França que, inclusive, já tiveram exposições das esculturas desta paraibana.

O verdadeiro artista é aquele que está sempre em processo de mutação, procurando universos criativos novos. Nené é destas artistas que procura inovar a todo momento. A riqueza de detalhes de suas peças é tamanha que em diversas esculturas podemos observar o colorido dos bustiês de rosas, detalhes de fuxicos, flores, brincos, colares, etc. Ela é capaz de misturar materias como pregos, parafusos, arames farpados, molas, pedras semi-preciosas, porcelanato em suas esculturas de cerâmica de uma forma tão livre e singela que seu trabalho é impossível de ser comparado a qualquer outro já existente. E é essa uma das suas maiores características: a originalidade. Não bastasse essa mistura de materiais, Nené buscou também no barro uma forma natural de colorir suas peças, pois sua queima em um forno específico para cerâmica faz com que ele mude de tonalidade e se transforme em tons de vermelho, branco, amarelo, rosa, etc.

A técnica desenvolvida por Nené é uma mistura de seu aprendizado como pessoa, mulher e mãe. Não fosse a passagem pelo Curso de Enfermagem e Pedagogia não poderia traçar de forma tão perfeita as linhas do corpo humano, as expressões trazidas nos semblantes de suas peças. Como mulher pode trazer às suas esculturas os segredos da alma feminina. Por fim, como mãe veio a inspiração de dedicar parte de seu trabalho aos anjos, seja por sua delicadeza ou pela aproximação do próprio instinto maternal.

Érica Paiva